10 de jan. de 2022

Livro: "Porque Era Ela, Porque Era Eu", de Clara Corleone

"- é um dos indícios da paixão, isso de achar belas as coisas prosaicas."


Olá, leitores!

"Porque Era Ela, Porque Era Eu" é o romance de estreia da autora nacional Clara Corleone, que também é autora de um livro de crônicas intitulado "O Homem Infelizmente Tem Que Acabar". O recebi em parceria com a L&PM Editores. Já adianto que é o tipo de livro para ler em uma sentada, não só por ser relativamente curto (168 páginas), mas pela escrita da autora, que é muito gostosa, como se a gente estivesse conversando com uma amiga.

Nesse livro, a autora aborda as relações amorosas-sexuais do século XXI, com homens e mulheres ora buscando novas formas de estar juntos, ora reencenando antigos papéis. Num estilo arejado, com diálogos certeiros e instigantes, a autora celebra a amizade entre mulheres e o poder de se reinventar. Um romance pulsante, que nos provoca a devorá-lo inteiro.

"Estranho isso de se sentir só sem estar só."

O que achei:

Eu poderia deixar a sinopse dele mais clara, mas acho que o charme inicial do livro está na confusão que a gente faz com quem está falando o que - e quando o esclarecimento vem, o impacto é certeiro, por isso optei por não estragar essa experiência aqui. Só esclareço que temos duas personagens contando seu ponto de vista, sua história, em primeira pessoa, que se alterna a cada capítulo.

Tem linguagem adulta de cunho sexual crua e sem pudores, encaixada aqui e ali de forma bem interessante. O plano de fundo do livro é Porto Alegre, cidade natal da autora, então deve ser uma experiência de leitura muito divertida pra quem mora no local, ao poder reconhecer os cantinhos pelos quais os personagens passaram. Os capítulos são curtos e a leitura fluida, de forma que é possível ler o livro em um dia - e terminar com o coração quentinho e muito bem resolvido, como acontece com as personagens.

"Sinto que isso pode acabar explodindo: as palavras que guardo e não digo - e também as palavras mal ditas."

Acredito que existem dois temas principais aqui (além de várias ramificações destes). O primeiro deles é sobre relacionamentos afetivos, com foco na traição. E, confesso, doeu um pouquinho ler, se colocar na pele da personagem e sentir sua angústia. Quantas de nós já não fomos como ela? É até um gatilho pra quem já passou por isso. Dá vontade de chorar, afinal ninguém quer ver o amor do outro acabar.

Em segundo lugar, o livro fala sobre sororidade, sobre a força da amizade, sobre esse elo forte que só as mulheres conseguem ter umas pelas outras, sobre o feminino de uma forma ampla. É uma celebração à nossa união e me emocionou bastante a relação das personagens com seu respectivo grupo de melhores amigas.

"Não queria ir, odeio ver gente quando estou me sentindo mal e preciso fazer de conta que está tudo bem."

Outro ponto que achei bastante interessante foi ver a percepção das duas mulheres sobre os mesmos relacionamentos, vide o encontro casual com o personagem chamado Fernando e a forma como ele afetou de forma diferente as duas protagonistas. Como ser bem resolvida e ter inteligência emocional, ser emocionalmente estável de fato, te faz um bem danado e nada do que vem do outro te machuca. Ah, e como é bom o autoconhecimento advindo de boas sessões de terapia.

O livro também faz menção ao ghosting e ao gaslighting, dentre outros comportamentos sociais, que consistem em “técnicas” que pessoas maduras não usam quando querem encerrar um relacionamento. O primeiro refere-se a quando uma pessoa some da sua vida por vontade própria, sem deixar maiores explicações do motivo do sumiço. O segundo se trata de uma espécie de manipulação que beira a violência psicológica, onde o outro manipula a realidade de forma a fazer a mulher se sentir culpada, a histérica da história. Vale a pena pesquisar mais a fundo cada um deles pra entender melhor sobre o assunto e não cair nessas armadilhas.

"No final das contas, o assunto preferido de todo mundo é falar de si mesmo."

Por fim, foi um livro que me emocionou bastante. Cheguei a chorar em dois trechos, rs. Remexeu algumas feridinhas internas por aqui. Até a orelha escrita por Martha Medeiros é emocionante! Me reconheci muito em uma das personagens e senti um afago com seu caminho de libertação. O esclarecimento do título do livro também é de uma doçura e força que nem tem explicação… Que possamos ser como as personagens do livro: reconhecer as batalhas umas das outras e não nos colocarmos como rivais nunca, mesmo que a situação nos diga o contrário.

Estou encantada pela Clara Corleone e já quero ler mais escritos dela! Agradeço muito à editora por ter me dado a oportunidade de ler essa joia! Recomendo a leitura de olhos fechados! Minha nota para o livro foi 4,5 estrelas!

Seguem outras quotes que destaquei ao longo da minha leitura (algumas por ter achado engraçadas e outras que me fizeram refletir):

  • "- o amor é tão clichê!";
  • "Com dezessete anos tu não sabe nada da vida";
  • "Uma mulher de 33 anos deveria estar fazendo qualquer coisa em uma sexta-feira que não fosse segurar um espetinho de queijo coalho enquanto bebe Brahma";
  • "(...) ver gente bonita é sempre uma coisa boa";
  • "Toda puta pinta as unhas de vermelho" (essa eu particularmente ri muito pois estou usando as unhas na cor vermelha essa semana);
  • "'Os homens simplesmente ignoram que mulheres possam querer, apenas, transar";
  • "Era errado, é errado, se relacionar com uma pessoa  que está em um relacionamento com outra. É errado - e não tem discussão";
  • "Acho que a dor intensifica o efeito do álcool";
  • "Nem sempre quem a gente ama nos ama, nem sempre o cara por quem a gente se apaixona se apaixona pela gente";
  • "Como podia uma pessoa te fazer tão bem e também te fazer tão mal?";
  • "'(...) A velhice, aliás, é um conceito ultrapassado. O que é ser velho? Se podemos viver até os noventa anos, cem anos, tu realmente acha que uma pessoa de cinquenta anos é velha?'";
  • "'(...) E não existem coisas que tu 'não pode' fazer por causa da idade. Tudo é permitido'";
  • "Essa sensação de não pertencer mais a ninguém, de não fazer mais parte de um casal, me trouxe uma impressão de queda, uma coisa vertiginosa tanto no sentido de medo do novo quanto de excitação com esse mesmo novo. Um mergulho em algo desconhecido";
  • "(...) às vezes a gente acredita no que quer acreditar - mesmo que seja algo impossível";
  • "Uma canalha. Uma chantagista, era isso que eu era. Uma mulher implorando o amor de um homem que não a ama. Uma mulher disposta a buscar mais do que outras mulheres apaixonadas: não os búzios, os santos, o tarot, as mandingas, simpatias, rezas, preces, velas, mentiras, amuletos, não. Uma mulher disposta a ferir outra mulher, com força. Fazê-la sangrar. Deixá-la sangrando. (...) Usar minha dor para machucá-la. Tomar veneno para fazê-la morrer";
  • "Mas amizade é o melhor tipo de amor que existe - e o amor não é uma coisa meio maluca?";
  • "O tempo é um dos deuses mais lindos";
  • "Um relacionamento amoroso não é tudo na vida. A gente pode ter vários namorados, mas uma boa amiga, de fé, que topa qualquer parada, que nunca solta a tua mão... é difícil";
  • "'Grande porcaria ser adulto. A maior parte deles sabe menos da vida do que as crianças'".

Vocês já conheciam esse livro?
Caso contrário, ficaram interessados pela leitura?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

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