8 de mar. de 2022

Livro: "Depois do Sim", de Taylor Jenkins Reid

Olá, leitores!
Como vão vocês?

Meu terceiro livro lido de 2022 foi um romance. Li “Depois do Sim” em e-book no Kindle para a discussão do Book Club do meu amigo, do qual faço parte. Ele foi publicado pela Editora Paralela em 2020 e tem 320 páginas. Foi meu primeiro contato com a Taylor Jenkins Reid, autora que está bombando no momento, e, embora tenha gostado da escrita dela e do livro, não foi uma história que me tocou como imaginei que fosse sentir...

O livro conta, de forma resumida, a história de Lauren e Ryan que, após onze anos de casamento, chegam à triste conclusão de que não estão felizes juntos. Esse poderia ser o fim, mas para os dois é só o começo. Eles vão passar por um ano diferente de tudo aquilo que já viveram, no qual aprenderão muito mais sobre si mesmos do que seriam capazes de imaginar.

O que achei:

O casal principal do livro está junto há bastante tempo, mas chegaram em uma fase onde tudo o que o outro faz irrita o parceiro, as brigas e o desgosto são inevitáveis e o rompimento de anos de relacionamento parece a única solução necessária.

Apesar disso, eles decidem não dar um fim de uma vez por todas, mas fazem um acordo para tentar um novo começo: o casal vai passar um ano separado, vivendo em casas diferentes e sem contato um com o outro, de forma a ver se, no fim desse período, os sentimentos entre eles estarão mais claros, para que possam então tomar uma decisão definitiva.

Porém, ao acessar a conta do e-mail do marido, Lauren descobre que Ryan tem escrito e-mails para ela, os quais nunca são enviados, e ela passa então a não só ler e entender os pensamentos do marido como o responde em sua própria caixa de e-mail, também sem enviar as correspondências.

Assim, acompanhamos esse ano de separação do casal, suas novas experiências, suas relações familiares, bem como a forma como estão lidando com a separação e redescobrindo seus verdadeiros sentimentos.

À princípio, tem muitas lições interessantes. Acho que, antes de mais nada, o livro fala sobre aquela sensação inquietante quando estamos em um relacionamento que está esfriando. Como saber se vale a pena continuar insistindo na vida a dois? Será que o amor supera mesmo tudo?

É um prato cheio pra quem está em um relacionamento e, mesmo que não esteja passando pela crise na qual o casal principal se encontra, vale a pena refletir nas questões levantadas aqui no sentido de usá-las como exemplos do que fazer - e não fazer - em uma vida como casal. Presenciei no livro muitas críticas que já ouvi de amigos em relacionamentos, bem como situações que eu mesma já vivi na vida amorosa. Por isso, é fácil relacionar o que acontece entre Lauren e Ryan com a nossa vida. É um enredo que não está distante de nenhum de nós.

Por outro lado, a personagem principal não me agradou. Ela é muito indecisa sobre o que quer e sente e acredito que muitas de suas atitudes com o companheiro foram egoístas e impensadas. Em muitos momentos fiquei irritada com ela. Além disso, considerei a resolução do problema do casal feita na hora errada, pois ocorreu em um momento de vulnerabilidade da personagem. Será que, em outras circunstâncias, ela teria reagido da mesma forma?

O livro é dividido em partes que não necessariamente influenciam na história, mas nos situam um pouco na passagem do tempo do livro. Embora não tenha simpatizado com a protagonista, amei os personagens secundários criados pela autora. Ela tem um talento incrível pra descrever tudo: cenários, relações, trejeitos dos personagens. Visualizei tudo muito bem na minha mente e criei um carinho grande pela família de Lauren! Eles criaram vida na minha imaginação, sabe? Algumas partes também são divertidas e deu pra me entreter bastante durante a leitura.

Acredito que a grande lição do livro é: FALE! A comunicação, não só nas relações amorosas como em todas as nossas relações sociais, é primordial, e a falta dela pode causar inúmeros mal-entendidos que poderiam facilmente ser resolvidos por meio do diálogo. Se ficarmos calados, como os outros vão entender nossa insatisfação? Só abertos à uma boa e franca conversa é que conseguimos resolver nossas diferenças!

Embora não tenha amado o livro, não considero uma experiência ruim. Sem dúvida foi uma porta de entrada para outros livros da autora e não vejo a hora de ler tudo dela! Minha nota para ele foi 3,5 estrelas!

Vocês já conheciam esse livro? O que acharam?
Um grande beijo e até a próxima!

11 de jan. de 2022

Livro: "O Homem de Lata", de Sarah Winman

"Homens e meninos deveriam ser capazes de fazer coisas bonitas."


Olá, leitores!

Vim conversar com vocês sobre o livro "O Homem de Lata", da autora Sarah Winman, publicado pela Faro Editorial. Decidi lê-lo pois é um livro bem curtinho e fiquei apaixonada pela edição física. Algumas pessoas já haviam comentado o quanto ele era emocionante e parecia o tipo de leitura que eu precisava. Não poderia ter feito escolha melhor!

O livro conta a história de dois amigos, Ellis e Michael. Eles se conheceram em 1963, aos 12 anos, ambos vindo de situações familiares muito delicadas: enquanto a mãe de Ellis, Dora, sofria com um relacionamento abusivo e Ellis era tratado com indiferença pelo pai, Michael perdeu sua mãe e seu pai decidiu deixar os cuidados da criação dele para outra pessoa, sua avó Mabel.

Assim, eles encontram conforto e amizade um no outro, bem como na relação com Mabel, com a qual os meninos passam a maior parte do tempo e faz as vezes de figura materna para ambos. A medida que crescem, porém, o sentimento entre eles vai se transformando em algo muito maior, que vai além da mera amizade entre os dois rapazes.

A história nos faz passar por várias fases no tempo e, quase uma década depois, encontramos Ellis casado com o Annie. Mas o que aconteceu entre a adolescência e a idade adulta que fizeram o amor entre eles se perder? É o que vamos descobrir a cada virar de páginas.

"Quem éramos nós, Ellis, eu e Annie? Tentei explicar várias vezes, mas não consegui. Nós éramos tudo, e então nos separamos. Mas eu me separei. Sei disso."

O que achei:

Honestamente, não esperava que tanta emoção coubesse em um livro tão pequeno. Nas suas 160 páginas, "O Homem de Lata" me surpreendeu e emocionou. Terminei a leitura com um grande nó na garganta e refletindo mil coisas sobre a vida...

O livro não segue uma linha temporal correta. À principio, somos levados para o passado, em um episódio ocorrido na vida da mãe de Ellis que tem grande importância para a história. Depois, encontramos três divisões: a primeira, sobre a vida na visão de Ellis, em terceira pessoa. A segunda, na visão de Michael, em primeira pessoa, retornando para Ellis com a mesma forma de escrita.

"(...) Eu não chorei. Mas às vezes é como se minhas veias estivessem drenando, como se o meu corpo estivesse pesado demais, como se eu estivesse me afogando por dentro."

Diversas peças de um quebra-cabeça são lançadas durante essas partes, e é nosso papel como leitores irmos montando cada pecinha no seu lugar. Quando constatamos algum novo fato, vem aquele choque quando compreendemos o que estava acontecendo e, sinceramente, a cada página virada aumentava o peso no meu coração...

Não é um conto de fadas, muito menos uma história de amor... É um relato cruel da vida como ela é, como, não importa quantos sonhos a gente tenha, às vezes eles não se concretizam, por mais que a gente queira. Quantas escolhas erradas fazemos por medo - medo de sermos julgados, medo da nossa própria liberdade de escolha, medo de magoar o outro - e acabamos perdendo a chance de encontrar a felicidade.

"Descanso até me acalmar e normalizar a respiração. Me ergo e sento na borda da piscina com uma toalha em torno dos ombros. E me pergunto qual poderá ser o som de um coração partido. E acho que deve ser baixo, quase imperceptível, sem nenhuma dramaticidade. Como o som de uma andorinha esgotada caindo suavemente na terra."

O livro traz um ambiente muito melancólico e sombrio. A sensação de coração esmagado me tomou durante praticamente toda a leitura. Eu só queria abraçar os personagens e dizer que tudo ia ficar bem... Foi uma leitura que realmente me abalou, me fez chorar e ver como a vida pode ser cruel em pequenas nuances.

Desculpem se a resenha parece vaga, mas esse é aquele tipo de livro que é muito melhor aproveitado quando você cai nele de cabeça, sem conhecer nada sobre a história. Além disso, falar demais pode estragar completamente essa experiência, uma vez que ele é curtinho e rápido de ler.

"Obrigada. Porque tudo aquilo a que ela se apegava e tudo aquilo em que ela acreditava se juntaram naquele momento inesperado. A convicção de que homens e meninos eram capazes de coisas belas."

Com relação à edição, não poderia ser mais impecável. A capa, em tons de amarelo, rementem aos girassóis (que também estão espalhados em outras partes da edição), que têm grande importância no enredo. As ilustrações na divisão das partes também ficaram um charme. Talvez a única parte negativa seja a fala dos personagens, que estão destacadas apenas em itálico. Como não estava acostumada com esse formato, acabei me perdendo em algumas partes. Porém, fora isso, a Faro está de parabéns pelo lindo trabalho, que traz uma delicadeza a mais pra experiência de leitura! Minha nota para ele foi 4 estrelas!

E vocês, já leram o livro? O que acharam?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

10 de jan. de 2022

Livro: "Porque Era Ela, Porque Era Eu", de Clara Corleone

"- é um dos indícios da paixão, isso de achar belas as coisas prosaicas."


Olá, leitores!

"Porque Era Ela, Porque Era Eu" é o romance de estreia da autora nacional Clara Corleone, que também é autora de um livro de crônicas intitulado "O Homem Infelizmente Tem Que Acabar". O recebi em parceria com a L&PM Editores. Já adianto que é o tipo de livro para ler em uma sentada, não só por ser relativamente curto (168 páginas), mas pela escrita da autora, que é muito gostosa, como se a gente estivesse conversando com uma amiga.

Nesse livro, a autora aborda as relações amorosas-sexuais do século XXI, com homens e mulheres ora buscando novas formas de estar juntos, ora reencenando antigos papéis. Num estilo arejado, com diálogos certeiros e instigantes, a autora celebra a amizade entre mulheres e o poder de se reinventar. Um romance pulsante, que nos provoca a devorá-lo inteiro.

"Estranho isso de se sentir só sem estar só."

O que achei:

Eu poderia deixar a sinopse dele mais clara, mas acho que o charme inicial do livro está na confusão que a gente faz com quem está falando o que - e quando o esclarecimento vem, o impacto é certeiro, por isso optei por não estragar essa experiência aqui. Só esclareço que temos duas personagens contando seu ponto de vista, sua história, em primeira pessoa, que se alterna a cada capítulo.

Tem linguagem adulta de cunho sexual crua e sem pudores, encaixada aqui e ali de forma bem interessante. O plano de fundo do livro é Porto Alegre, cidade natal da autora, então deve ser uma experiência de leitura muito divertida pra quem mora no local, ao poder reconhecer os cantinhos pelos quais os personagens passaram. Os capítulos são curtos e a leitura fluida, de forma que é possível ler o livro em um dia - e terminar com o coração quentinho e muito bem resolvido, como acontece com as personagens.

"Sinto que isso pode acabar explodindo: as palavras que guardo e não digo - e também as palavras mal ditas."

Acredito que existem dois temas principais aqui (além de várias ramificações destes). O primeiro deles é sobre relacionamentos afetivos, com foco na traição. E, confesso, doeu um pouquinho ler, se colocar na pele da personagem e sentir sua angústia. Quantas de nós já não fomos como ela? É até um gatilho pra quem já passou por isso. Dá vontade de chorar, afinal ninguém quer ver o amor do outro acabar.

Em segundo lugar, o livro fala sobre sororidade, sobre a força da amizade, sobre esse elo forte que só as mulheres conseguem ter umas pelas outras, sobre o feminino de uma forma ampla. É uma celebração à nossa união e me emocionou bastante a relação das personagens com seu respectivo grupo de melhores amigas.

"Não queria ir, odeio ver gente quando estou me sentindo mal e preciso fazer de conta que está tudo bem."

Outro ponto que achei bastante interessante foi ver a percepção das duas mulheres sobre os mesmos relacionamentos, vide o encontro casual com o personagem chamado Fernando e a forma como ele afetou de forma diferente as duas protagonistas. Como ser bem resolvida e ter inteligência emocional, ser emocionalmente estável de fato, te faz um bem danado e nada do que vem do outro te machuca. Ah, e como é bom o autoconhecimento advindo de boas sessões de terapia.

O livro também faz menção ao ghosting e ao gaslighting, dentre outros comportamentos sociais, que consistem em “técnicas” que pessoas maduras não usam quando querem encerrar um relacionamento. O primeiro refere-se a quando uma pessoa some da sua vida por vontade própria, sem deixar maiores explicações do motivo do sumiço. O segundo se trata de uma espécie de manipulação que beira a violência psicológica, onde o outro manipula a realidade de forma a fazer a mulher se sentir culpada, a histérica da história. Vale a pena pesquisar mais a fundo cada um deles pra entender melhor sobre o assunto e não cair nessas armadilhas.

"No final das contas, o assunto preferido de todo mundo é falar de si mesmo."

Por fim, foi um livro que me emocionou bastante. Cheguei a chorar em dois trechos, rs. Remexeu algumas feridinhas internas por aqui. Até a orelha escrita por Martha Medeiros é emocionante! Me reconheci muito em uma das personagens e senti um afago com seu caminho de libertação. O esclarecimento do título do livro também é de uma doçura e força que nem tem explicação… Que possamos ser como as personagens do livro: reconhecer as batalhas umas das outras e não nos colocarmos como rivais nunca, mesmo que a situação nos diga o contrário.

Estou encantada pela Clara Corleone e já quero ler mais escritos dela! Agradeço muito à editora por ter me dado a oportunidade de ler essa joia! Recomendo a leitura de olhos fechados! Minha nota para o livro foi 4,5 estrelas!

Seguem outras quotes que destaquei ao longo da minha leitura (algumas por ter achado engraçadas e outras que me fizeram refletir):

  • "- o amor é tão clichê!";
  • "Com dezessete anos tu não sabe nada da vida";
  • "Uma mulher de 33 anos deveria estar fazendo qualquer coisa em uma sexta-feira que não fosse segurar um espetinho de queijo coalho enquanto bebe Brahma";
  • "(...) ver gente bonita é sempre uma coisa boa";
  • "Toda puta pinta as unhas de vermelho" (essa eu particularmente ri muito pois estou usando as unhas na cor vermelha essa semana);
  • "'Os homens simplesmente ignoram que mulheres possam querer, apenas, transar";
  • "Era errado, é errado, se relacionar com uma pessoa  que está em um relacionamento com outra. É errado - e não tem discussão";
  • "Acho que a dor intensifica o efeito do álcool";
  • "Nem sempre quem a gente ama nos ama, nem sempre o cara por quem a gente se apaixona se apaixona pela gente";
  • "Como podia uma pessoa te fazer tão bem e também te fazer tão mal?";
  • "'(...) A velhice, aliás, é um conceito ultrapassado. O que é ser velho? Se podemos viver até os noventa anos, cem anos, tu realmente acha que uma pessoa de cinquenta anos é velha?'";
  • "'(...) E não existem coisas que tu 'não pode' fazer por causa da idade. Tudo é permitido'";
  • "Essa sensação de não pertencer mais a ninguém, de não fazer mais parte de um casal, me trouxe uma impressão de queda, uma coisa vertiginosa tanto no sentido de medo do novo quanto de excitação com esse mesmo novo. Um mergulho em algo desconhecido";
  • "(...) às vezes a gente acredita no que quer acreditar - mesmo que seja algo impossível";
  • "Uma canalha. Uma chantagista, era isso que eu era. Uma mulher implorando o amor de um homem que não a ama. Uma mulher disposta a buscar mais do que outras mulheres apaixonadas: não os búzios, os santos, o tarot, as mandingas, simpatias, rezas, preces, velas, mentiras, amuletos, não. Uma mulher disposta a ferir outra mulher, com força. Fazê-la sangrar. Deixá-la sangrando. (...) Usar minha dor para machucá-la. Tomar veneno para fazê-la morrer";
  • "Mas amizade é o melhor tipo de amor que existe - e o amor não é uma coisa meio maluca?";
  • "O tempo é um dos deuses mais lindos";
  • "Um relacionamento amoroso não é tudo na vida. A gente pode ter vários namorados, mas uma boa amiga, de fé, que topa qualquer parada, que nunca solta a tua mão... é difícil";
  • "'Grande porcaria ser adulto. A maior parte deles sabe menos da vida do que as crianças'".

Vocês já conheciam esse livro?
Caso contrário, ficaram interessados pela leitura?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

9 de jan. de 2022

Livro: "Menino de Engenho", de José Lins do Rego

"Foi ali com ela, sentindo o cheiro de seus cabelos pretos e a boa carícia de suas mãos morenas, que aprendi as letras do alfabeto. Sonhava com ela de noite, e não gostava domingos porque ia ficar longe de seus beijos e abraços."


Olá, leitores!

"Menino de Engenho" é o romance de estreia do escritor José Lins do Rego. Foi publicado pela primeira vez em 1932 e recebeu diversos elogios da crítica, bem como recebeu, no ano seguinte, o prêmio da Fundação Graça Aranha. Em 1965, o livro ganhou uma adaptação para o cinema. Ele marca o primeiro de 5 títulos que compõem a série de livros conhecida como "Ciclo da Cana-de-Açúcar".

Feitas as devidas apresentações, o romance, que tem como plano de fundo o Nordeste, nos conta a história de Carlinhos. Aos 4 anos, o menino perdeu a mãe, que foi assassinada pelo próprio marido. Órfão, ele acaba sendo levado para o engenho do coronel José Paulino, seu avô, e encontra na Tia Maria, irmã de sua mãe, uma nova figura materna.

"No cercado dos engenhos o menino se inicia nestes mistérios do sexo, antecipando-se por muitos anos no amor. A reprodução da espécie ficava para nós um ato sem grandeza alguma."

O que achei:

O livro descreve, basicamente, a infância e o início da adolescência de Carlinhos (até os 12 anos) nessa nova vida no engenho. O livro é pequeno, com capítulos curtos, e Zé Lins tem uma escrita gostosa, como alguém a contar histórias. Li a edição de 2020 publicada pelo Grupo Editorial Global, a qual é linda! Tem uma bela ilustração de capa em verde vivo e as lombadas dos 5 livros que compõem a série formam um belo conjunto na estante. As páginas são brancas, de boa grossura, e fontes em ótimo tamanho, o que facilita a leitura. A narrativa é rápida, cheia de acontecimentos, e ocorrem na primeira pessoa, na visão do Carlinhos.

O livro nos apresenta, ao longo de seus capítulos, diversos personagens que entram e saem da vida de Carlinhos, suas preocupações, tristezas e choros, primeiros amores, corações partidos e felicidades, pequenas alegrias que vêm e voltam tão rápido quanto chegaram. Mostram também como a vida das crianças no engenho perde rapidamente o encanto e a pureza, com uma iniciação sexual não saudável, que deixa grandes marcas.

"A religião que eu tinha vinha ainda das conversas com minha mãe. Sabia que Deus fizera o mundo, que havia céu e inferno, e que a gente sofre na terra por causa de uma maçã."

Um fato interessante é que a infância do protagonista se assemelha bastante, em certa parte, com a vida do próprio autor, que nasceu no engenho de seu avô materno e, assim como Carlinhos, perdeu a mãe e ficou afastado do pai, sendo criado por sua tia. Ainda, vale destacar que o romance foi tão bem aceito no meio literário que foi publicado na França em 1953, sob o título "L'enfant de la plantation".

Há, no entanto, partes bastante indigestas na leitura… A época na qual se passa a história é aquela na qual a escravidão já havia sido abolida. Porém, muitos ainda permaneciam trabalhando como criados nas casas-grandes, em troca de comida, um lugar para morar e mantimentos. Logo, ainda há aquela discrepância entre a vida na casa-grande e nas senzalas, que não deixaram de existir. E ainda há a sensação de superioridade dos brancos, principalmente ao referenciar os negros com pronomes possessivos, como ilustrado no trecho que destaquei abaixo, o qual me deu arrepios...

"As negras do meu avô, mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho (...). O meu avô continuava a dar-lhes de comer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a mesma alegria da escravidão. As suas filhas e netas iam-lhes sucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e a mesma passividade dos bons animais domésticos."

Alguns trechos da obra, porém, aparecem para tentar "minimizar" esse impacto, como a convivência com as pessoas negras de forma constante, dividindo a mesma mesa, o mesmo alimento, frequentando as mesmas festas, superando os mesmos desafios (como as cheias na região). Não deixa de causar, porém, uma inquietação imensa, o que pode despertar alguns gatilhos. Afinal, quem seria feliz vivendo como escravo, sem poder ser dono do próprio caminho, sofrendo com as injustiças sociais?

De forma geral, é uma leitura que vale muito a pena, não só para conhecer esse romance que impactou o cenário da literatura nacional, mas também para conhecer - e reconhecer - o regionalismo brasileiro contido na obra, bem como confrontar com a atualidade as desigualdade sociais vividas na época, para que continuemos a combatê-las. Minha nota para ele foi 3,5 estrelas!

Seguem outros trechos que destaquei durante a leitura:

  • "Queríamos viver soltos, com o pé no chão e a cabeça no tempo, senhores da liberdade que os moleques gozavam a todas as horas";
  • "E eram mesmo abençoados por Deus, porque não morriam de fome e tinham o sol, a lua, a chuva e as estrelas para brinquedos que não se quebravam";
  • "Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia ficar para semente? (...) Esta horrível preocupação da morte tomava conta da minha imaginação";
  • "O mundo de um menino solitário é todo dos seus desejos";
  • "- Judiar com passarinho bota as pessoas pro inferno, menino. Deus Nosso Senhor fez os pássaros foi pra cantar no mato, soltinhos";
  • "E um sonho de menino é maior que de gente grande, porque fica mais próximo da realidade";
  • "O costume de ver todo dia esta gente na sua degradação me habituava com sua desgraça. Nunca, menino, tive pena deles. Achava muito natural que vivessem dormindo em chiqueiros, comendo um nada, trabalhando como burros de carga. A minha compreensão de vida fazia-me ver nisto uma obra de Deus. Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus quisera nós éramos brancos e mandávamos neles. Mandávamos também nos bois, nos burros, nos matos";
  • "Dormi à noite, com Maria Clara junto de mim. Os sonhos de um menino apaixonado são sempre os mesmos. Acordei-me, porém, com a primeira angústia de minha vida. Os pássaros cantavam tão alegres no gameleiro, porque talvez não soubessem da minha dor. Senti nesse meu despertar de namorado um vazio doloroso no coração. Tinha perdido a minha companheira dos cajueiros. E chorei ali entre os meus lençóis lágrimas que o amor faria ainda muito correr dos meus olhos";
  • "Só pensava nos meus retiros lúbricos com o meu anjo mau, nas masturbações gostosas com a negra Luísa. E comecei a querer-lhe um bem esquisito. Um bem que me arrastava ao rabo de sua saia para onde ela ia. E não gostava dos negros com quem se metia em cochichos. O grande mal dos amorosos, a inquietação dos que se sentem enganados, um ciúme impertinente enfiava-se todo pelo meu coração";
  • "Perdera a inocência, perdera a grande felicidade de olhar o mundo como um brinquedo maior que os outros. Olhava o mundo através dos meus desejos e da minha carne. Tinha sentidos que desejavam as botas do Polegar para as suas viagens".

Vocês já conheciam esse clássico da nossa literatura?
Se sim, o que acharam da experiência de leitura?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

7 de jan. de 2022

Livro: “Qual o Problema das Mulheres?”, de Jacky Fleming


Olá, leitores!

Hoje vim conversar com vocês sobre um livro bem diferente, cheio de cartuns e com um humor feminista ácido, chamado "Qual o Problema das Mulheres?". Este é um livro escrito e ilustrado pela cartunista feminista britânica Jacky Fleming, que recebi para leitura em parceria com a L&PM Editores.

Trata-se de um livro curto e bem rápido de ler (dá pra finalizar em poucas horas), de apenas 144 páginas, recheado de imagens que, junto a pequenos textos, nos levam a refletir sobre o apagamento das conquistas femininas na história do mundo.

É inteiramente escrito com um humor irônico e bem crítico, que desperta sentimentos dúbios: ao terminar a leitura, não sabia se ficava triste pelos feitos de mulheres brilhantes da nossa sociedade terem sido ignorados, ou feliz de saber que eles estão finalmente sendo retirados da Lixeira da História, como diz o livro, e revelados para o mundo.

Traz uma crítica mordaz ao tratamento que as mulheres recebiam dos homens ao longo dos séculos. Um relato cru sobre como éramos diminuídas, ridicularizadas, desacreditadas e restringidas aos afazeres domésticos, que eram considerados leves, enquanto os homens eram os únicos detentores de saber.

O final apresenta um glossário com as personalidades femininas citadas no livro, todas com histórias de vida incríveis e inspiradoras. Vale a pena pesquisar mais a fundo sobre cada uma delas depois de finalizar a leitura.

Com relação à edição física, está muito bonita. O livro contém páginas na cor branca, que são característica da editora, mas que podem não agradar à todos os leitores, especialmente os que tem predileção pelas páginas amareladas. Além disso, a fonte do texto do livro todo é no estilo cursiva. Não é tão boa para uma leitura fluida, mas é possível compreender o texto - além de dar um charme e um diferencial maior à edição.

No mais, por ser bem curtinho, não há tanto o que comentar sem dar maiores spoilers. Porém, recomendo esse livro para todos! É, sem sombra de dúvidas, uma leitura que tira a venda dos nossos olhos, que nos faz aplaudir de pé (afinal, é para isso que servimos, não é?) as mulheres que lutaram tanto no passado para conquistarmos os direitos que temos hoje e, por fim, agradecermos por sermos mulheres - mesmo com todos percalços, fomos, somos e seremos dignas de muito mais conquistas!

Deixo registrado meu agradecimento à L&PM Editores pela oportunidade de ter essa obra maravilhosa na estante! Queria que ele tivesse mais páginas. Já estou animada para conhecer mais trabalhos da autora! Minha nota para ele foi 4,5 estrelas!

E vocês, gostam de cartuns? Já conheciam esse livro?
Um grande beijo a todos e até a próxima!