"O efeito que ele produzia não pode ser entendido por quem não esteve ali. A beleza de tudo também não, e, quando passamos a ver beleza na desolação, algo muda dentro de nós. A desolação tenta nos colonizar."
Olá, leitores!
Hoje vim conversar com vocês sobre um livro que mexeu muito comigo e foi uma das minhas leituras de 2019: "Aniquilação", de Jeff Vandermeer. Ele é o primeiro volume da Trilogia Comando Sul, também composta pelos volumes "Autoridade" e "Aceitação".
Nesse livro, nós conhecemos um grupo de quatro mulheres enviadas para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana.
Elas fazem parte da décima segunda expedição ao local, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem.
Uma missão mortal, visto que todas as expedições anteriores tiveram resultados assustadores, como suicídios em massa, tiroteios descontrolados e casos de mudança de personalidade súbita seguidos de morte por câncer. As mulheres partiram para a Área X esperando o inesperado... E foi exatamente isso que encontram.
"Nada que esteja vivo e respire é capaz de objetividade total - nem mesmo no vácuo, nem mesmo se tudo que aquela mente possuir for uma ânsia pela verdade capaz de qualquer sacrifício."
O que achei:
"Aniquilação" ganhou, em 2018, uma adaptação pela Netflix, e foi por meio dela que conheci o livro. Primeiro assisti ao filme e só depois, em uma promoção, comprei o primeiro volume da trilogia de Vadermeer.
Nesta história, temos 4 mulheres numa expedição à misteriosa Área X: uma bióloga, uma antropóloga, uma topógrafa e uma psicóloga, sendo esta última a chefe da expedição. Havia nesse grupo uma linguista, que desistiu da missão antes mesmo de ingressar nela. Quem narra nossa história, em 1ª pessoa, é a bióloga, e não sabemos nem o nome dela nem das outras integrantes do grupo. Elas sequer se conhecem ou tem alguma relação de amizade. Tudo é bastante impessoal, frio, cheio de desconfiança e, quanto mais tempo permanecer assim, melhor.
"Eu não queria sentir a voz delas dentro da minha cabeça, as ideias que tinham a meu respeito, nem suas histórias ou seus problemas. Por que iriam querer os meus?"
A Área X é um local afastado e isolado, que teve seu ambiente completamente modificado por algo que o Comando Sul, organização governamental que tenta controlar e estudar o local, desconhece. Muitas expedições já tentaram entender a Área X, mas todas tiveram consequências desastrosas para seus integrantes. Agora, acompanhamos o desbravamento do local junto à 12ª expedição, em um grupo composto inteiramente por mulheres.
A ideia principal da expedição é anotar em um diário todos os acontecimentos de ronda, bem como catalogar tudo de diferente que será encontrado por lá. Como acompanhamos a história pelo olhar da bióloga, há partes bastante descritivas da flora e da fauna local, o que deixa o livro levemente monótono. Em outros capítulos, temos o flashback da vida da personagem antes de adentrar à Área X, relatando um pouco de sua vida na juventude, da sua vida profissional e da relação que tinha com seu marido, um dos poucos que conseguiu retornar da expedição.
"Existem alguns tipos de morte que não se pode obrigar alguém a reviver, um tipo de conexão tão profunda que, quando se rompe, você sente o estalo do elo partido dentro de você."
A adaptação segue um caminho completamente distinto do livro. As histórias seguem o mesmo plot mas são, ao mesmo tempo, bem diferentes. No entanto, não me decepcionei com nenhum dos dois. Talvez por ter visto o filme e o ambiente onde a história se passa já ter sido construído na minha mente, fiquei com uma sensação de incômodo durante toda a leitura esperando pelo que ia acontecer. É de certa forma angustiante e não traz resposta a nenhuma pergunta: aquele tipo de livro controverso e complexo, que você precisa prestar atenção nas entrelinhas pra captar todas as nuances da história.
"Aniquilação" mexeu comigo de uma forma inimaginável. Penetrou na minha mente como as plantas em crescimento que a bióloga gostava de observar. Tudo na Área X é estranho, excêntrico, irracional, carregado de uma tensão onde você pensa que algo vai acontecer e não acontece - e, quando acontece, você se pergunta se aquilo de fato aconteceu ou foi só fruto da sua imaginação.
"É assim que a loucura do mundo tenta colonizar você: de fora para dentro, forçando você a viver aquela outra realidade."
E, justamente por isso, é um livro interessante demais! O final, embora levemente frustrante, é completamente condizente com a caminhada da personagem até aquele momento. Gostei muito de vê-lo diferente do que aconteceu no filme. Terminamos, logicamente, sem explicação para nada, mas espero encontrar algo mais nos próximos volumes, que vou ler com certeza! Ah, as capas e a edição, lindas, dão um toque a mais na leitura que é impossível não resistir!
Quanto ao filme, como disse, temos muitas diferenças no enredo. Nossa bióloga é interpretada pela Natalie Portman, que, ao meu ver, encaixou maravilhosamente bem no papel. A primeira grande mudança é que, no filme, as personagens têm nome. Ainda, a equipe da adaptação é composta por 5 mulheres, sendo apenas 4 no livro. Grande parte dos acontecimentos de horror só existem no filme. A pressão do livro é muito mais psicológica que outra coisa. O final do livro sem dúvida é mais completo e cheio de revelações e detalhes que dão um nó na nossa cabeça. O filme, por sua vez, cria uma nova teoria que, apesar de também ser aberta a nossa interpretação, fecha o ciclo sem a necessidade de uma continuação.
"Eu o amava, mas não precisava dele, e achava que era assim que as coisas deveriam ser."
Uma das grande vantagens de assistir ao filme é imaginar a Área X como ela realmente é. A descrição do livro, apesar de muito detalhada, não chega perto da maravilhosa visão do diretor Alex Garland, principalmente nos espaços mais belos do lugar. As localizações também são muito interessantes, embora tenham grande diferença no livro, bem como o destino do marido da protagonista. Há, na adaptação, muito mais violência que no livro, então podem ler tranquilos sem o risco dos mesmos gatilhos. Coloquei algumas quotes pra vocês sentirem o gostinho do livro espalhadas pelo post, mas seguem outras que também se destacam:
- "Quando estamos tão próximos do centro de um mistério, não há como dar alguns passos para trás e vê-lo por inteiro";
- "O isolamento pode pressionar demais uma pessoa, como que lhe cobrando alguma ação";
- "Uma pessoa pode decidir desperdiçar seu tempo preocupando-se com uma morte que talvez não aconteça, ou se concentrar nas coisas que ainda lhe restam";
- "Permiti que minhas defesas fossem vencidas por poços de maré e fungos que degradam plástico, mas não por ele. De todos os aspectos de seu diário, foi esse que mais me consumiu. Ele tinha criado boa parte dos nossos problemas - me pressionando demais, querendo muitas coisas, tentando ver em mim algo que não existia. Mas eu poderia ter avançado para encontrá-lo no meio do caminho, e mantido minha independência. E agora era tarde demais";
- "A imagem dele acompanhando a orla rumo ao norte, sozinho, buscando naquela experiência a lembrança de dias mais felizes, me deixou imensamente orgulhosa dele. Mostrava o quanto era resoluto. O quanto era valente. Aquilo me aproximou dele de uma maneira mais íntima do que qualquer outro momento que passamos juntos";
- "(...) algumas perguntas podem nos destruir por dentro se a resposta nos for negada por tempo demais";
- "Tenho consciência de que toda esta especulação é incompleta, inexata, imprecisa, inútil. Se não tenho respostas verdadeiras é porque ainda não sabemos que perguntas devemos fazer. Nossos instrumentos são inúteis; nossa metologia, defeituosa; nossas motivações, egoístas";
- "Talvez tivesse sido um cara popular. Ou solitário. Ou um pouco dos dois. Não importa: nada daquilo significou coisa alguma no fim";
- "Não ligava para política, a não ser para como a política influía no meio ambiente. Não era uma pessoa religiosa. Todos os meus hobbies tinham relação com o trabalho. Eu vivia para o trabalho e me entusiasmava com a força desse vício, que era também algo profundamente particular. Não gostava de falar sobre minhas pesquisas. Não usava maquiagem nem me importava em ter sapatos novos ou conhecer as canções mais recentes. Estou certa de que os amigos do meu marido me achavam taciturna ou pior. Talvez me achassem pouco sofisticada, ou 'estranhamente rude', como ouvi um deles dizer certa vez, embora não tenha certeza de que estava mesmo falando de mim".
E vocês, já leram esse livro? Ficaram interessados?
Recomento muito pra quem, assim como eu, gosta de ficção científica mas não é muito habituado ao gênero, bem como pra quem ama ficar filosofando sobre leituras. Passei dias com "Aniquilação" na cabeça e é só falar dele que a sensação retorna, rs! Minha nota para ele foi 4 estrelas!
Um grande beijo a todos e até a próxima!


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