9 de jan. de 2022

Livro: "Menino de Engenho", de José Lins do Rego

"Foi ali com ela, sentindo o cheiro de seus cabelos pretos e a boa carícia de suas mãos morenas, que aprendi as letras do alfabeto. Sonhava com ela de noite, e não gostava domingos porque ia ficar longe de seus beijos e abraços."


Olá, leitores!

"Menino de Engenho" é o romance de estreia do escritor José Lins do Rego. Foi publicado pela primeira vez em 1932 e recebeu diversos elogios da crítica, bem como recebeu, no ano seguinte, o prêmio da Fundação Graça Aranha. Em 1965, o livro ganhou uma adaptação para o cinema. Ele marca o primeiro de 5 títulos que compõem a série de livros conhecida como "Ciclo da Cana-de-Açúcar".

Feitas as devidas apresentações, o romance, que tem como plano de fundo o Nordeste, nos conta a história de Carlinhos. Aos 4 anos, o menino perdeu a mãe, que foi assassinada pelo próprio marido. Órfão, ele acaba sendo levado para o engenho do coronel José Paulino, seu avô, e encontra na Tia Maria, irmã de sua mãe, uma nova figura materna.

"No cercado dos engenhos o menino se inicia nestes mistérios do sexo, antecipando-se por muitos anos no amor. A reprodução da espécie ficava para nós um ato sem grandeza alguma."

O que achei:

O livro descreve, basicamente, a infância e o início da adolescência de Carlinhos (até os 12 anos) nessa nova vida no engenho. O livro é pequeno, com capítulos curtos, e Zé Lins tem uma escrita gostosa, como alguém a contar histórias. Li a edição de 2020 publicada pelo Grupo Editorial Global, a qual é linda! Tem uma bela ilustração de capa em verde vivo e as lombadas dos 5 livros que compõem a série formam um belo conjunto na estante. As páginas são brancas, de boa grossura, e fontes em ótimo tamanho, o que facilita a leitura. A narrativa é rápida, cheia de acontecimentos, e ocorrem na primeira pessoa, na visão do Carlinhos.

O livro nos apresenta, ao longo de seus capítulos, diversos personagens que entram e saem da vida de Carlinhos, suas preocupações, tristezas e choros, primeiros amores, corações partidos e felicidades, pequenas alegrias que vêm e voltam tão rápido quanto chegaram. Mostram também como a vida das crianças no engenho perde rapidamente o encanto e a pureza, com uma iniciação sexual não saudável, que deixa grandes marcas.

"A religião que eu tinha vinha ainda das conversas com minha mãe. Sabia que Deus fizera o mundo, que havia céu e inferno, e que a gente sofre na terra por causa de uma maçã."

Um fato interessante é que a infância do protagonista se assemelha bastante, em certa parte, com a vida do próprio autor, que nasceu no engenho de seu avô materno e, assim como Carlinhos, perdeu a mãe e ficou afastado do pai, sendo criado por sua tia. Ainda, vale destacar que o romance foi tão bem aceito no meio literário que foi publicado na França em 1953, sob o título "L'enfant de la plantation".

Há, no entanto, partes bastante indigestas na leitura… A época na qual se passa a história é aquela na qual a escravidão já havia sido abolida. Porém, muitos ainda permaneciam trabalhando como criados nas casas-grandes, em troca de comida, um lugar para morar e mantimentos. Logo, ainda há aquela discrepância entre a vida na casa-grande e nas senzalas, que não deixaram de existir. E ainda há a sensação de superioridade dos brancos, principalmente ao referenciar os negros com pronomes possessivos, como ilustrado no trecho que destaquei abaixo, o qual me deu arrepios...

"As negras do meu avô, mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho (...). O meu avô continuava a dar-lhes de comer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a mesma alegria da escravidão. As suas filhas e netas iam-lhes sucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e a mesma passividade dos bons animais domésticos."

Alguns trechos da obra, porém, aparecem para tentar "minimizar" esse impacto, como a convivência com as pessoas negras de forma constante, dividindo a mesma mesa, o mesmo alimento, frequentando as mesmas festas, superando os mesmos desafios (como as cheias na região). Não deixa de causar, porém, uma inquietação imensa, o que pode despertar alguns gatilhos. Afinal, quem seria feliz vivendo como escravo, sem poder ser dono do próprio caminho, sofrendo com as injustiças sociais?

De forma geral, é uma leitura que vale muito a pena, não só para conhecer esse romance que impactou o cenário da literatura nacional, mas também para conhecer - e reconhecer - o regionalismo brasileiro contido na obra, bem como confrontar com a atualidade as desigualdade sociais vividas na época, para que continuemos a combatê-las. Minha nota para ele foi 3,5 estrelas!

Seguem outros trechos que destaquei durante a leitura:

  • "Queríamos viver soltos, com o pé no chão e a cabeça no tempo, senhores da liberdade que os moleques gozavam a todas as horas";
  • "E eram mesmo abençoados por Deus, porque não morriam de fome e tinham o sol, a lua, a chuva e as estrelas para brinquedos que não se quebravam";
  • "Tinha um medo doentio da morte. Aquilo da gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre estes felizardos. Por que não podia ficar para semente? (...) Esta horrível preocupação da morte tomava conta da minha imaginação";
  • "O mundo de um menino solitário é todo dos seus desejos";
  • "- Judiar com passarinho bota as pessoas pro inferno, menino. Deus Nosso Senhor fez os pássaros foi pra cantar no mato, soltinhos";
  • "E um sonho de menino é maior que de gente grande, porque fica mais próximo da realidade";
  • "O costume de ver todo dia esta gente na sua degradação me habituava com sua desgraça. Nunca, menino, tive pena deles. Achava muito natural que vivessem dormindo em chiqueiros, comendo um nada, trabalhando como burros de carga. A minha compreensão de vida fazia-me ver nisto uma obra de Deus. Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus quisera nós éramos brancos e mandávamos neles. Mandávamos também nos bois, nos burros, nos matos";
  • "Dormi à noite, com Maria Clara junto de mim. Os sonhos de um menino apaixonado são sempre os mesmos. Acordei-me, porém, com a primeira angústia de minha vida. Os pássaros cantavam tão alegres no gameleiro, porque talvez não soubessem da minha dor. Senti nesse meu despertar de namorado um vazio doloroso no coração. Tinha perdido a minha companheira dos cajueiros. E chorei ali entre os meus lençóis lágrimas que o amor faria ainda muito correr dos meus olhos";
  • "Só pensava nos meus retiros lúbricos com o meu anjo mau, nas masturbações gostosas com a negra Luísa. E comecei a querer-lhe um bem esquisito. Um bem que me arrastava ao rabo de sua saia para onde ela ia. E não gostava dos negros com quem se metia em cochichos. O grande mal dos amorosos, a inquietação dos que se sentem enganados, um ciúme impertinente enfiava-se todo pelo meu coração";
  • "Perdera a inocência, perdera a grande felicidade de olhar o mundo como um brinquedo maior que os outros. Olhava o mundo através dos meus desejos e da minha carne. Tinha sentidos que desejavam as botas do Polegar para as suas viagens".

Vocês já conheciam esse clássico da nossa literatura?
Se sim, o que acharam da experiência de leitura?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

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