18 de jul. de 2021

Livro: "Herdeiras do Mar", de Mary Lynn Bracht

"Na ilha de Hana, o mergulho é tarefa para as mulheres. O corpo delas se adapta às profundezas geladas do oceano melhor que o dos homens. Elas conseguem prender a respiração por mais tempo, nadar mais fundo e manter a temperatura corporal mais alta, portanto há séculos as mulheres de Jeju têm gozado de uma rara independência."


Olá, leitores!

"Herdeiras do Mar" foi um dos melhores livros que li até agora em 2021. O li para discutir no Book Club do meu amigo e foi uma experiência incrível conhecer essa história emocionante. O livro nos conta sobre a vida de duas irmãs: Hana, a mais velha, e Emi, a caçula. Quando Hana nasceu, a Coreia já estava sob ocupação japonesa, e por isso a garota sempre foi considerada uma cidadã de segunda classe, com direitos renegados. No entanto, nada diminui o orgulho que tem de sua origem.

Assim como sua mãe, Hana é uma haenyeo, ou seja, uma mulher do mar, que trabalha por conta própria seguindo uma tradição secular. Na Ilha de Jeju, onde vivem, elas são as responsáveis pelo mergulho marinho - uma atividade tão perigosa quanto lucrativa, que garante o sustento de toda a comunidade. Como haenyeo, Hana tem independência e coragem, e não há ninguém no mundo que ela ame e proteja mais do que Emi, sua irmã sete anos mais nova. É justamente para salvar Emi de um destino cruel que Hana é capturada por um soldado japonês e enviada para a longínqua região da Manchúria.

A Segunda Guerra Mundial estava em curso e, assim como outras centenas de milhares de adolescentes coreanas, Hana se torna uma "mulher de consolo": com apenas dezesseis anos, ela é submetida a uma condição desumana em bordéis militares. Apesar de sofrer as mais inimagináveis atrocidades, Hana é resiliente e não vai desistir do sonho de reencontrar sua amada família caso sobreviva aos horrores da guerra.

"'Sempre olhe para a praia quando voltar à superfície, senão você pode perder o norte', a mãe disse, virando o rosto de Hana para que ela enxergasse a terra. Na areia, sua irmã estava sentada, protegendo os baldes que continham a pesca do dia. 'Procure sua irmã depois de cada mergulho. Nunca se esqueça disso. Se puder vê-la, você estará segura.'"

O que achei:

"Herdeiras do Mar" é um livro forte, pesado, indigesto e emocionante. Pensei que, pela temática, não fosse conseguir ler. Mas, felizmente, consegui, e sou grata por ter feito isso. A história é incrível, marcante e vai me acompanhar por muito tempo.

A sinopse dispensa maiores comentários. Aqui, conhecemos a história de uma família que foi separada e dilacerada pela guerra, com enfoque especial nas duas irmãs. O livro possui capítulos intercalados da visão de cada uma delas, em terceira pessoa, e nos mostra como ambas lidaram com diferentes destinos, cada uma com sua dose de sofrimento.

"'Promessas são para sempre, Hana. Não se esqueça.'"

A história de Emi é contada por uma ótica mais recente, onde a vemos na terceira idade, com dois filhos, tentando lidar com os fantasmas do passado que surgem em forma de flashbacks, nos quais compreendemos sua trajetória. Já os capítulos dedicados à Hana são todos no passado.

É uma história intensa demais e machuca. Me emocionei e chorei algumas vezes durante a leitura. Traz muitos gatilhos, principalmente pelo conteúdo sensível sobre estupro, abusos dos mais diversos e violência contra as mulheres. Apesar dessa temática, a escrita da autora é maravilhosa, muito gostosa de ler. Ela trabalha de forma muito visual, o que nos faz mergulhar profundamente no livro, como se estivéssemos dentro da vida das protagonistas, visualizando tudo que estava acontecendo. É do tipo que flui bem e não dá vontade de largar, por isso suas pouco mais de 300 páginas passam voando.

"A leveza acalma seu corpo debilitado. Prender a respiração por até dois minutos a cada vez que mergulha em busca das recompensas do oceano é uma espécie de meditação."

Confesso que esse capítulo da Segunda Guerra Mundial para o qual a autora se dedicou era ignorado por mim - e por muitos outros leitores, pelo que percebi. São eventos que a Coreia lutou muito para serem reconhecidos como crimes, então o contexto histórico retratado pela autora, bem como a mescla com elementos reais (as haenyeo, as mulheres de consolo e a Estátua da Paz, que tem grande destaque na trama) nos faz acreditar que Hana e Emi realmente existiram, o que torna a experiência de leitura ainda mais emocionante.

Emi teve uma infância roubada, cheia de culpa, medo, raiva contida. Ainda assim, guardou tudo para si, para ver os filhos crescerem felizes. A história dela com os filhos me encantou e, ao mesmo tempo, me destruiu. Seu momento de revelação para os filhos é um dos pontos altos de sua história. Sua reconciliação com o passado e a clareza dos filhos pelas atitudes da mãe são de aquecer o coração, bem como sua relação com uma amiga de infância. São detalhes de coadjuvantes da história que a deixam ainda mais bela. Me agradou bastante a homossexualidade retratada em um desses personagens de forma tão linda e singela.

"Chorar é a última coisa que passa pela cabeça de Hana. Ela não quer que os soldados percebam seu medo."

Já Hana tem uma carga de abuso, violência e sofrimento muito grande. Sua história causa repulsa e a todo momento nos aflige por ser tão cruel. É angustiante e desesperador vê-la passar do caos a liberdade tantas vezes, como se ela nunca conseguisse se livrar o mal imposto pelo personagem Morimoto, o soldado que a raptou e criou por ela uma espécie de fixação, como se Hana pertencesse apenas a ele. Pelas situações que ela passa, é triste ver o quanto ela fica tão traumatizada que, mesmo longe do cenário opressor, as pessoas e seus gestos, como pequenas gentilezas tão inocentes, ainda a deixam sobressaltada, como se ele tivesse esquecido que humanos podem ser bons uns com os outros. Pior ainda é saber que muitas mulheres passaram por tudo isso na vida real - e tantas outras ainda passam quando se fala em tráfico de pessoas e escravidão sexual... Porém, embora seu final tenha ficado um pouco aberto, a luz no fim do túnel é de aquecer o coração. Os capítulos na Mongólia foram os meus preferidos.

Seguem outras quotes que amei e destaquei durante a leitura, além das que já coloquei aqui ao longo da resenha:

  • "O medo é uma dor tangível pulsando através de seus membros como choques elétricos. Medo do futuro desconhecido.";
  • "Ela não faz nenhum comentário sobre sua direção. Não é sensato puxar conversa com um mau motorista.";
  • "Quanta diferença um ano faz.";
  • "Só falava o necessário com ele. Foi por isso que seu casamento durou tanto tempo. Não havia amor, mas sobreviveu porque ela sempre mantinha a boca fechada.";
  • "Ela não conhece palavras suficientes para explicar à filha uma vida inteira de silêncio. Mas não pode mais mentir.";
  • "'Não deixe que sua teimosia te impeça de encontrar a paz.'";
  • "YoonHui não era como as outras garotas. Ela olhava para cima, para o céu, e não para as profundezas do mar.";
  • "'Nós mergulhamos no mar como nossas mães, avós e bisavós fizeram por centenas de anos. Esse dom é o nosso orgulho, pois não nos submetemos a ninguém, nem a nossos pais, nem a nossos maridos, nem a nossos irmãos mais velhos, nem mesmo aos soldados japoneses durante a guerra. Pescamos nossa própria comida, fazemos nosso próprio dinheiro, e sobrevivemos da colheita que o mar nos oferece. Vivemos em harmonia com esse mundo; quantos professores podem dizer o mesmo? É o nosso dinheiro que paga o salário dele. Sem as nossas mãos de 'operárias' ele passaria fome.'";
  • "Emi olhou para o céu, esforçando-se para enxergar o que a filha via quando olhava para o mundo. Um vazio negro a saudou, mas havia consolo escondido em sua vastidão.";
  • "Ela encontrou o amor - nem todos são abençoados com tamanha dádiva - e é feliz.";
  • "A dor ensina.";
  • "'Nunca confie num homem a quem você deve dinheiro." Hana pensa que talvez jamais volte a confiar em um homem."
  • "Presenciar a morte de alguém é uma coisa estranha e assustadora. Em um momento a pessoa está lá, respirando, pensando, cheia de gestos, e então, no momento seguinte, não há mais nada.";
  • "Às vezes velhas feridas precisam ser reabertas para serem curadas de maneira adequada (...)";
  • "Essas memórias a afligem, mas também a sustentam. Elas invadem o silêncio de sua pequena prisão - cada memória reconfortante a fere como se uma lâmina cortasse sua pele. A dor a faz lembrar de seu sacrifício.";
  • "'A pena é uma forma de gentileza', diz Keiko com a voz magnânima. 'Cada uma de nós merece pena, mas ninguém nessa terra abandonada tem a compaixão de nos dedicar esse tipo de gentileza. Então estamos presas aqui nessa humilhação, sendo torturadas dia após dia. Não nos resta nada a não ser compartilhar entre nós a menor gentileza que tivermos.'";
  • "Talvez, se ela permitir que as outras vejam sua humilhação e sua dor, isso provoque uma identificação. Como se estivessem se olhando no espelho, as outras meninas veriam a si mesmas, ensanguentadas e envergonhadas, e a acolheriam em seu grupo.";
  • "'Há coisas neste mundo que você nunca deveria precisar saber, e eu vou te proteger delas pelo tempo que puder. Esse é o meu dever como mãe. (...)'"
  • "'Aprenda com o meu erro: nunca confie num homem. (...)'"
  • "Às vezes ela sentia como se tivesse sido trazida a este mundo apenas para sofrer. As pessoas hoje em dia parecem satisfeitas em buscar a felicidade na vida. Isso é algo que a sua geração nunca compreendeu, que a felicidade é um direito humano básico (...)";
  • "Palavras são poder, seu pai lhe disse certa vez depois de recitar um de seus poemas políticos. Quanto mais palavras você conhece, mais poderoso você fica. É por isso que os japoneses proibiram nossa língua nativa. Limitando nossas palavras, eles estão limitando nosso poder.";
  • "Elogios levam a coisas desagradáveis, mas ela tenta não mostrar seu desânimo.";
  • "Ela nunca quis que seus filhos conhecessem o sofrimento que ela conheceu. Mantê-los no escuro foi a coisa mais altruísta que ela já fez. E o fez por amor.";
  • "Ela deseja que não tivesse sido necessário o tempo de uma vida para chegar a este momento, mas não se pode mudar o passado. O presente é tudo o que lhe resta.";
  • "A lista de mulheres que são estupradas em tempos de guerra é longa e vai continuar crescendo a menos que nós incluamos o sofrimento das mulheres em tempos de guerra em livros de história, que recordemos em museus as atrocidades cometidas contra elas e que lembremos das mulheres e garotas que perdemos com a construção de monumentos em sua honra, como a Estátua da Paz.";
  • "É nosso dever educar as futuras gerações a respeito das terríveis e reais verdades cometidas durante guerras, não escondê-las ou fingir que nunca aconteceram. Devemos lembrá-las para que os erros do passado não se repitam. Livros de história, canções, romances, peças de teatro, filmes e monumentos são essenciais para nos ajudar a nunca esquecer, enquanto também nos ajudam a prosseguir em paz."

Fiz muitas marcações, eu sei, rs. Mas, se pudesse, faria com que todos lessem esse livro incrível! Por fim, ressalto que o amei muito e recomendo para quem adora livros emocionantes baseados em fatos históricos reais, mas deixo o alerta dos gatilhos. Minha nota para ele foi 5 estrelas!

Já leram "Herdeiras do Mar"? O que acharam?
Um grande beijo a todos e até a próxima!

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